LEMBRANÇAS DA TV CEARÁ CANAL 2

 

Fortaleza em 1959, ainda com respiração forçada devido a ressaca da grande seca do ano anterior, observava a intensa migração dos cearenses para a construção de Brasília, futura capital do País na vivencia do anos JK.

As pessoas comodamente sentadas em suas calçadas no embalar das conversas de vizinhos, passaram a temer os chamados “Rabos de Burro” que, de passeio em suas lambretas aprontavam com a mocidade. As ruas foram sendo proliferadas com os automóveis DKW-Vemag e os chouffers dos carros de aluguel, passaram a se animar com os estudos dos taxímetros, onde tiraria de seus ombros, o velho cálculo de cobrar tarifas por quilometragem, aborrecendo passageiros.

A lamentação ainda era grande, pois, indelevelmente o incêndio no Hospital César Cal’s com a morte do estudante que foi herói e mártir, João Nogueira Jucá, marcou o fortalezense, mas a rádio Dragão do Mar, quinta emissora, ainda que na infância, ajudou o povo a levantar a auto-estima, apaixonando seus ouvintes.

Pois bem, os jornais da época e com exclusividade o Correio do Ceará, publicaram com ênfase as razões que garantiam a instalação da primeira Estação de Televisão no Ceará. A Ceará Rádio Clube PRE-9, emissora dos “Diários Associados”, e com a liderança que lhe era própria, divulgava o assunto com expressividade, afinal, tudo pertencia ao comando do Jornalista Assis Chateaubriand.

O terreno para o erguimento da TV ficava na Estância do Castelo em meio a um coqueiral, a 35 metros acima do nível do mar, e pertencia a Dionísio Torres, que com sua morte fora homenageado com o nome do bairro. A televisão sem dúvida valorizou o local, elitizando aquele pedaço: Barão de Studart  → Antonio Sales → Desembargador Moreira.

A construção foi em ritmo acelerado, e segundo relatórios, foi destacada a preocupação de Guilherme Neto (Diretor Artístico da PRE-9) quanto à formação da equipe para enfrentar as câmeras e o equipamento RCA, proveniente dos Estados Unidos da América. A torre auto suportável de fabricação Marconi que pesava 30 toneladas, media 108 metros, e dava para emitir imagens com alcance sem repetidora, em cerca de 100 quilômetros. Seus isoladores de porcelana para serem fixados nas bases de concreto, foram substituídos por blocos de ferro fundido, trabalho este executado nas oficinas da Rede de Viação Cearense – RVC. A montagem e os ajustes desta colossal obra estiveram sob o comando do engenheiro eletrônico, Igor Olimpiew, então diretor técnico dos Diários Associados.

A casa ficou prontinha. Era um edifício de 2 andares, cor amarela com uma área de 5.808 m² e localizava-se entre as ruas Oswaldo Cruz e Visconde Mauá com a frente para a Avenida Antonio Sales. De chegada tinha a frase: “Tudo aqui é bem feito com amor”. Assis Chateaubriand.

Aí precisamente às 17 horas de sábado, 26 de novembro de 1960, Aderson Braz, com toda califasia, colocou oficialmente a TV Ceará Canal 2 no ar estando presentes no ato inaugural, Juraci Magalhães (Governador da Bahia), Wilson Gonçalves, Governador em exercício do Ceará, prefeito de Fortaleza, General Cordeiro Neto e outras autoridades. Chateaubriand mandou um cabograma ao Capitão Tabajara, que era o Dr. Manuel Eduardo Pinheiro Campos (1923- 2007), a quem tanto o Ceará admirou. O parabenizou pela titânica obra realizada em tão pouco tempo.

Não era fácil fazer televisão naquela época, pois, não havia condições para efeitos especiais, nem mesmo vídeo tape. Tudo era ao vivo e bem ensaiado. As garotas propagandas se perfilavam defronte as câmaras e cumpriam expedientes. Stelinha Barbosa era um amor de pessoa.

No jornalismo tínhamos o Repórter Real, Repórter Cruzeiro, Correio do Ceará na TV, Noticiário Relâmpago, Política Quase Sempre que nos davam informações completas e imparciais graças ao trabalho de Aderson Braz, Candido Colares, Narcélio e Paulo Lima Verde, Luciano Diógenes, Orlando Santos, Ciro Saraiva e etc…

Programas de auditório como o Show do Mercantil, Porque Hoje é Sábado, Romcy Gira a Sorte, Sete Dias em Destaque cujas apresentações eram com Augusto Borges, Gonzaga Vasconcelos, Matos Dourado…

As telenovelas com João Ramos, Karla Peixoto, Ari Sherlock, Antonio Mendes (O Toinho), Emiliano Queiroz, Wilsom Machado, Cleide Holanda, Jane Azeredo…Na comédia Renato Aragão, Picanço, Wilson Aguiar, Praxedinho, com o Vídeo Alegre.  Como esquecer os 35 espetáculos do Contador de Histórias? Lembram do Lobo do Mar? Aí foi muito coisa.

Em 1965, chegou o Vídeo Tape, então passamos a ver filmes como: Bonança, Ratos do Deserto, Zorro, Chicote Negro, Caveira, Os Invasores, Viagem ao Fundo do Mar, Túnel do Tempo, Perdidos no Espaço, a “Deusa” de Joba, Império Submarino, Tarzan, Ilha dos Birutas, Meus Tres Filhos,  Jim das Selvas…Desenhos animados como Super 6, Os Impossíveis, Homem Aranha,  Super Heróis Estrela, Dino Boy, Frankstein Jr

As novelas da tupy como Um Anjo Marcado, Direito de Nascer, A Ré Misteriosa, Irmãos Corsos, Sangue do Meu Sangue, João Juca Junior… A transmissão de lutas livre (Telekate Montilla) que em respeito às crianças, era apresentada às 23 hs dos sábados.

Falar em TV Ceará Canal 2, é lembrar A Grande Chance e Um Instante Maestro com Flávio Cavalcante; A Grande Parada com Wanderley Cardoso, Jair Rodrigues e Rosymeire;  Noite com As Estrelas, Clube dos Artistas. O Programa J. Silvestre… Perdoem-me por pecar nas omissões, afinal, não estou fazendo um resgate pleno da história, e sim lembrando o canal desaparecido, que é a televisão de minha infância, sem apelações ou tendências.

Aí em julho de 1980, a TV Ceará já na euforia das cores e afiliada da Rede Tupy, segundo Aderson Braz, por problemas administrativos e contextuais, saiu em definitivo do ar. Mas saiu apenas do ar e não da mente do telespectador, como eu que nada tinha a ver com isso.  Saiu do ar, mas não de nossa lembrança e nem do sangue dos que tanto trabalharam para nos oferecer entretenimento, informação e cultura. Quem conhece a história, não esquece aquele 26 de novembro que, segundo a história da comunicação televisiva, foi uma apoteose em Fortaleza, quando já existiam cerca de mil aparelhos receptores.

O único impacto causado pela televisão em nossos costumes foi o recolhimento das cadeiras nas calçadas e, infelizmente agora, com imagens em que a família não fica mais à vontade para assistir. A televisão no inicio era outra, e na ficção é como diz Eduardo Campos: “Uma Fábrica de Sonhos”.