ÁLBUNS DE FIGURINHAS

 

 

Anos da década de 1960. A rural Willys cor verde com branco de propriedade do Sr. Queiroz  da Publicitária Maracanã, adentrava as estreitas e organizadas ruas da Vila Operária dos trabalhadores da Usina São José, no ex-aristocrático Jacarecanga, meu bairro berço.

“Na vila São José não Tem Menino”, era assim que o locutor dizia, e em seguida bradava: “Figurinhas, olha aí na bodega do seu Dioclécio”. A vila do Coronel Pedro Philomeno, só tinha três mercearias. A do Seu João Lima Passe (com a calçada interrompida com um tonel de duzentos litros de querosene), seu Dioclécio (com três portas verdes), e a do seu Assis do Gás  (avô do catita). Todos os moradores, eram unânimes, e nada de orgulho, pois era uma agregação proletária. A mercearia que recebia as figurinhas, era a do meio (Dioclécio), comércio esse que , em 1970 seria vendido para o Manuel Coreaú, marido da Judite, a mulher barriguda. Batizaram-na de Budega Nova.

Voltemos às figurinhas ou cromos. Primeiro, aliás, numa logística até porque esse termo marketing ainda não se ouvia falar na época. É o seguinte: educadamente o carro distribuidor, parava e aquelas pessoas de responsabilidade, ou que eles observavam, se economicamente eram ativos, ganhavam álbuns; os pacotes promocionais, a gurizada saia correndo atrás do carro. Faziam o rebolado de pacotes no ar, burburinho, que na brasileira era “Burbulinga”. Os pais olhavam o conteúdo dos álbuns. Segundo, quando a criançada após correr, chegava os pacotes um tanto amassados, colheita que caía do carro. Assim começa a se colecionar as figuras, e depois estava formado o clube de colecionadores, que se confraternizava, com a troca de cromos repetidos. “Tenho, não Tenho”. E quando a figura era por demais conhecida, era batizada de Figura Buga. Colecionava-se, se educava, e que lazer brincar o ganho, com bola de gude, e o bafo-bafo, com a mão na calçada, vendo quem virava as figuras.

As coleções eram: REIS DO RINGO, A NATUREZA E SUAS MARAVILHAS, OLÉ 69, MÉXICO 70, IDOLOS DO POVO, COISAS NOSSAS, IDOLOS DA TV, A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO, FAVORITOS DA JUVENTUDE, ARMAS E BANDEIRAS, RIM TIN TN, DEZ MANDAMENTOS, HEROIS DA TV, PERDIDOS NO ESPAÇO, OS MAIORAIS DO MUNDO, e por aí ia.

Saudade dos tempos que existia coisa boa pra se colecionar. Hoje, está mudado, nada mais a guardar. Álbum de quem?! Eu não teria coragem de guardar fotografias de gabolas, de quem só quer saber de seus próprios interesses. Civismo de quem? Ex – jogadores com declarações infelizes, que se diz que o dinheiro da saúde é para estádios, pois não se faz partidas de jogo em hospitais. E ainda recebe o nome de fenômeno. Cantores que estão fazendo de nossos ouvidos pinico! Eu não me arrependi de ter colecionado, e nem de preservar minhas coleções, mas não tenho mais coragem intelectiva de gastar com imagens, que merecem serem deletadas.

Figurinhas, bons costumes não existem mais para um povo, que está sem memória, mesmo sabendo que ainda é tempo de não matar o passado, afinal, passado não é o que passa e sim o que fica do que passou. Meus álbuns merecem serem preservados.

Vez por outra encontro pessoas nostálgicas, como o professor Olavo de Lima e o Radialista Djair Nogueira, que simplesmente é fantástico seu acervo musical.